sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Decisões



Voltando a sua forma normal, ele se sentou ao meu lado.
-Agora é sua vez Liza – Leo falou olhando para Liza. Com ele tão perto de mim era uma tortura, pois ainda me lembrava de quando nos beijamos(Quer dizer, foi eu quem o beijou). E agora ele era um anjo e possivelmente pensar em ter alguma coisa a mais do que ser só amigos já devia ser considerado como um grande pecado mortal. Eu tava lascada.
- Ok, é minha vez – Foi a primeira vez que prestei realmente atenção em Liza. Nos conhecemos hoje mas alguma me diz que teremos muito tempo juntas... Ela estava triste, com um olhar mais melancólico do que o de mais cedo, e parecia que contar aquela história não seria nada fácil. Na minha frente, ela começou:
“Bom, eu sou uma bruxa e eu sei que você desconfiou por eu estar aqui com vocês e ter te defendido da ventania mais cedo. Meu dom é o ar e não foi muito fácil descobrir qual dom eu tinha. Diferente de você, aprendi a ser bruxa sozinha e só quando estava totalmente ciente meu anjo protetor se revelou e contou tudo. Mas antes disso minha aura estava bastante negra, eu estava totalmente envolvida pelas sombras e fazia coisas ruins sem saber. E sem saber também a obscuridade começou a tomar conta do meu corpo e da minha alma. Eu me cortava”
Quando ela falou isso vi que lágrimas se formavam em seus olhos e eles, por sua vez, estavam olhando para os dois braços. E vagarosamente ela levantou  as mangas do vestido e tirou os terços. Foi então que vi aquelas marcas, eram diversas e todas já estavam brancas, o que significava que já estavam cicatrizadas e que ficariam para sempre. Mas o que será que teria causada tanta revolta. Liza segurando um soluço continuou:
“ Minha casa era um verdadeiro inferno. Minha mãe sempre descontava tudo em mim e me jogava na cara que eu não era como as outras meninas, que eu não era a filha que ela sonhou. E isso tudo porque minhas roupas, bom, você sabe, não são estilos “princesas” e “bonecas”, quer dizer, só se forem góticas” Ela soltou um risinho tentando aliviar o clima. “ E tinha meu irmão também, no começo eram brigas constantes entre mim e ele mas mãe sempre o defendia. Então, como ele era mais velho, acabou se envolvendo no mundo das drogas e como nós não tínhamos um pai,  minha mãe acabou cuidando dele. Mas por conta do estresse demasiado que meu irmão dava, o único meio  que ela encontrou de aliviar isso foi descontando em mim. Teve uma vez que ela rasgou todos os meus vestidos e jogou fora toda a decoração de caveiras, bonecas góticas e tudo que ela não considerava “normal”,  porque depois de uma confusão entre ela e meu irmão por conta de dinheiro, eu a  pedi para ter calma pois tudo ia dar certo.”
Com mais lágrimas nos olhos ela continuou: “  Foi nesse dia que comecei a me cortar. Aquilo era viciante pois a dor psicológica era substituída pela física e eu conseguia até sentir prazer com aquilo. Eu não sabia o tanto de mal que estava fazendo a mim mesma. Com o passar do tempo aquilo virou um verdadeiro vício, eu não só me cortava em casa mas em todos os lugares em que ia, tentava esconder de todos aquilo mas nem sempre passava despercebida. Foi aí que conheci o João.  Ele era o melhor amigo que você podia querer , mas quando começou a se meteu com os cortes dizendo que eu estava doente e precisava me tratar , a amizade acabou ali. Pelo menos era assim que eu esperava, porém ele não desistiu. Tentava me levar a igreja, a grupos e me distraia para eu esquecer um pouco do meu vício. Mas foi nesse tempo que minha mãe morreu”.
Ela desabou no sofá na nossa frente e começou a chorar desesperadamente. Eu e Leo corremos para abraçá-la e então sussurrei no seu ouvido: “ Não precisa terminar, vai ficar tudo bem”. Foi quando ela levantou da cadeira e ficando em pé, falou:
-Não, eu tenho que terminar. – e se acalmando prosseguiu:
“Quando ela faleceu meu mundo caiu de vez. Apesar dos seus defeitos ela continuava sendo minha mãe. Foi então que fiz o corte mais sério da minha vida.” Então ela apertou seu braço. “E isso quase me leva a morte. No hospital eu me encontrava na UTI pois tinha cortado uma veia importante e tinha perdido muito sangue. Sem expectativas, sem mais ninguém, esperava que ficasse sozinha pois o parente mais próximo da família morava a dois estados de distância   e meu irmão continuava se drogando. Mas João apareceu e ficou comigo todo o tempo e depois que sai de lá comecei a freqüentar grupos de oração e amar a Jesus o que, por sua vez, me levou a Deus. Minha alma estava se purificando e com isso comecei a sentir a magia. A magia pura só se senti quando sua alma está limpa ou quer estar limpa. A negra só se manifesta quando o bruxo ou a bruxa vão atrás dela, ou, em alguns casos, anjos maus a visitam e fazem com que se procurem  essas certas magias. “
“ Porém, esse não foi o meu caso. Com a ajuda do João, eu acabei desenvolvendo bem o meu poder e descobri em qual era especialista. Como eu já disse: em ar. Depois de bastante tempo  ele me revelou que era um anjo e foi então que tive certeza. Seus amigos podem ser verdadeiros anjos disfarçados. Ele salvou minha vida e sou eternamente grata. Então ele me revelou você, Esther.”
-Eu? – Perguntei surpresa.
-Você. Você é a líder dos seis elementos portanto a líder das seis bruxas.
-Seis bruxas? Ninguém me falou sobre isso.
- Tou falando agora. – Ela falou me olhando como se dissesse: “Sua lesada”. – Enfim, nós temos que descobrir em que elemento você se especializa para podermos ir atrás das outras meninas. E nós temos que fazer isso antes que a profecia se realize.
- Que profecia?
-Como Leo falou: Com a caça as bruxas várias meninas que usam magia pura também morrerão. Nossas ancestrais fizeram pactos que consistiam em os  seis elementos ficarem juntos. Se um desses saísse outro componente do grupo morreria. E se ele se recusasse a entrar no grupo, outros dois bruxos morreriam incluindo ele.
- Isso não pode ser... – Falei quase sem respirar. – Então se eu me recusar a sair do grupo outras duas pessoas morrerão,  incluindo eu?
-Nesse caso, não. Pois só quem sabe de bruxaria nessa geração somos eu e você. Se você se recusar a formar o grupo então eu morreria junto com você.
-Então podemos só fazer nosso grupo e deixar as outras bruxas no canto delas, pois assim elas nunca saberiam e, consequentemente, não correriam risco de vida.
- Não é tão simples. Do mesmo jeito que existem anjos bons existem anjos caídos, e estes podem influenciar os bruxos a usar sua magia para o mal e com isso ela poderá consumi-los como quase fez comigo. Por isso eu não posso deixá-los e nem você agora.
- E porque diabos eu tinha que saber disso tudo? – Gritei e me levantei para ir embora. Eu não pedi e nem quis tudo isso.. Eles poderiam ter deixado tudo em segredo e eu seguiria minha vida. Não queria ser uma bruxa. Então senti a mão de Leo.
- Por favor, Esther. Não se comporte como uma criança agora. Pense na vida das outras pessoas e pare de ser tão egoísta. Tem pessoas com mais problemas que você e tem pessoas que podem sofrer por sua causa.

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