segunda-feira, 14 de maio de 2012

Olhos vermelhos


 Você não consegui me ver como te vejo. Nunca vou conseguir te ter como você me tem. Nunca vou conseguir fazer você me amar como te amo. É uma prisão sem fim. É estar presa por vontade. É amar quem te sufoca. É estar lá, num sonho, num delírio. Como Camões citou: É ter com quem nos mata lealdade. É um querer desgraçado, é um sonho impossível. É se machucar por teimosia. É insistir no irreal. Mas mesmo assim resistir, continuar acreditando. Tendo fé que talvez aconteça. Talvez se torne real. Talvez deixe de ser um sonho. Talvez seja palpável. Só talvez. 



Com certeza estava delirando.  “Olhos vermelhos”, minha cabeça não estava nada boa. Dei mais uma olhada em Liza, ela continuava serena, me aproximei e sussurrei que tudo iria ficar bem e saí. Precisava respirar.
Atravessei a porta e voltei a fitar o corredor vazio. Procurei não encontrar os meninos no corredor, pois conseguiria evitar interrogatórios desnecessários. Passando pela recepção reparei que aquele lugar continuava quieto, quieto demais até para um hospital, cheguei ao estacionamento e, mesmo que houvesse vários carros, incluindo ambulâncias, estava com uma aparência deserta. Aproximei-me dos carros e admirei a lua. Era lua cheia, a minha preferida, e comecei a pensar em Liza e reparar em como despertava em mim um instinto de proteção, nunca havia notado isso, mas quando a vi imóvel e pálida como se estivesse morta, uma dor passou por mim e agora é como se tivesse obrigação de ajudá-la.
Talvez esse “instinto” seja uma forma de expressar o susto que senti. Pois não consegui entender que merda teria acontecido para Liza se cortar, não depois de tudo que ela nos contou, da história de superação e tudo mais.  Só tenho certeza de uma coisa: Os cortes não voltariam sem um motivo muito grande.
Sert.                                         
Ele seria incapaz, eu acho.
Mas eles brigaram.
E daí? Todo mundo briga.
Ele está com medo.
Lógico que ele está com medo. Quem não tá?
Caramba, eu só posso estar louca. Discutindo comigo mesma. Talvez, realmente, eu preciso me alimentar.
Tik
Som de um passo e senti meus pelos se eriçarem.
Tik. Tik. Tik
De repente tudo ficou escuro e vi olhos se materializando, mas não erma qualquer olhos. Eram aqueles olhos. Olhos vermelhos raivosos. Único ponto de luz na escuridão.  Estavam ficando maiores, maiores, maiores...
- Esther? – Ouvi uma voz conhecida me chamando e, num segundo, tudo estava normal de novo.  Então vi Sert me olhando com uma cara de preocupação. – Está tudo bem?
- Sim, está. – Respondi virando o rosto e me perguntando que merda tinha acontecido comigo.
- Posso sentar aqui? – Falou me tirando do transe e apontando para o lugar vazio do meu lado.
- Claro, a rua é pública. – Respondi com um sorriso.
- Ok, então vou me sentar- Enquanto ele sentava pude ver as olheiras e o ar de cansaço impregnado naquele rosto.
- Ei, nem vou perguntar se você está bem porque é perceptível que não. Vá para casa e descanse, posso ficar com Liza hoje. Ah, e sem contar que Leo é um anjo, então ela estará segura.
- Não posso. – Respondeu ele deitando no chão e encarando a lua.
- Por quê?
- Você deixaria Leo? Mesmo sabendo que ele iria ficar seguro? Digo... Nas mesmas condições de Liza. Você o deixaria? – Aquela pergunta me pegou de surpresa e percebi que nunca deixaria Leo se ele estivesse fraco, mesmo sabendo que outras pessoas cuidariam melhor dele do que eu.
- É você tem razão. – Falei me deitando também e encarando a lua. - Você tem toda razão.
- Eu sei. - E virando pra mim com um sorriso- Ah, está rolando um duelo de machos entre Leo e Erik lá na lanchonete.
            Leo:

- Vamos Sert. Reaja, Deus vai cuidar dela. Não se preocupe. - Falei deixando Esther no quarto de Liza e saindo com Sert. Pude sentir que Esther estava profundamente triste, eu queria ficar com ela, mas ela estava precisando de um tempo para si mesma.
- Deus? Deus? Não me fale de Deus. Se ele fosse tão bom assim, ela estaria salva e não numa cama de hospital. – Sert chamou minha atenção. - Ela está em coma. – Gritava ele.
- Mas não morta. – Falei em um tom tranquilizador, dons de ser um anjo.
Então ele desabou no corredor do lado da porta e começou a chorar.
- Eu sei me desculpe... Quero acreditar que Ele está cuidando dela. Mas é muito difícil – Disse enquanto lágrimas surgiam no seu rosto.
- Ele vai te ajudar agora. É só ter fé. Ele sabe o que faz. – Falei sentando ao lado dele no chão.
- Leo... Bom, Leo. Cadê Esther? – Falou Erik com um tom irônico.
- Está lá dentro com Liza. – Falei enquanto me levantava e ajudava Sert a fazer o mesmo.
- Ah, vou entrar. Já está na hora da gente ir. - Falou ele passando por mim para tentar entrar no quarto.
-Você não vai entrar aí. – Falei segurando a fechadura da porta, impedindo-o de entrar.
- E quem vai impedir? – Ele falou com um sorriso sarcástico e continuou forçando a fechadura. Porém, eu era mais forte.
- Por favor, não briguem. Liza está mal e Esther precisa de um momento com ela. Não façam nada para perturbá-las. Por favor. – Sert disse se colocando entre nós. Seu tom era de tristeza e esgotamento.
- Em consideração a você não farei nada. – Falou Erik soltando a fechadura.  - Então, garotos vamos tomar alguma coisa? Calma, estou falando de refrigerantes antes que certos anjos se sintam extremamente ofendidos, pois, pelo que sei anjos não podem tomar nada pesado.
- Nós podemos tomar bebida alcóolica se é isso que está tentando dizer, só não podemos exagerar e virar viciados como os seres humanos geralmente fazem.
- Sorte que não sou um ser humano. – retrucou com um sorriso de maldade nos lábios.
- Ok, Esther não está aqui e eu não preciso ver disputa de quem é mais “homem” aqui. Então vamos para lanchonete porque preciso de uma bebida - Falou Sert com um ar mais leve no rosto.
- E de comida. – Falei tentando aliviar o clima. Se é que isso era possível.
- Eh, isso também. – Falou ele fazendo uma cara de que não gostou muito da minha sugestão.
Então fomos para lanchonete. Conversamos o básico. Sert comeu um pouco, mas nada que pudesse chegar perto de uma refeição decente.
- Ei, vou dar uma volta. Volto depois. – Falou Sert se levantando da mesa.
- É, refrescar as ideias pode te fazer bem. – Falei dando-lhe um sorriso de encorajamento.
- Lembre-se: Solidão, ás vezes, é o melhor remédio. – Disse Erik também com um sorriso falso.
Sert se despediu e foi. Erik estava ali do meu lado, me encarando. E com um sorriso perguntou:
- E aí, Leo? A vida não vai tão boa, né? Uma das suas protegidas está lá numa cama de hospital. E a outra... Bom, a outra está comigo. – Acrescentou abrindo mais ainda o sorriso.
- Não vamos continuar essa discussão.

-Hum... Compreendo porque não quer falar sobre isso. Entendo como é ruim desejar algo e não poder tê-lo. Ops, acho que cometi um engano. Na verdade, não sei o que é isso. Na verdade, sempre tive o que quis. - Falou Erik abrindo uma garrafa de coca que se encontrava ao seu lado na mesa .
- Não sua salvação, certo?- Sabia que aquele era um assunto que o irritava. Na verdade, Erik sempre quis ser um anjo. Diferente dos outros ele nunca caiu, ele sempre foi. Tentava um jeito de conseguir se levantar e virar “puro”, porém sua natureza sempre foi má. Livre-arbítrio existe, mas para quem nasceu do plano espiritual ela praticamente não exerce função. Raramente ocorre, este é o caso de quem cai, e é duplamente difícil um anjo negro natural se “levantar”, pois o pecado uma vez consumido é difícil de largar.  E para naturais o pecado é triplamente prazeroso. E Erik amava o pecado, tentou uma, duas, três vezes largas essa “vida”, mas não aguentou a abstinência. Era um preço caro demais pra pagar. Pelo menos, era o que achava. Até hoje.

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